quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Radiografia Corporal






















Projeto Radiografia Corporal - Miguel Anselmo/Roberta Lima

Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo
Tomas-me o corpo. E que descanso me dás
Depois das lidas. Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado.
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
Ao invés de ganir diante do Nada.

Do desejo (trechos) - Hilda Hilst

Corpos

















segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Não Coisa















..."Toda coisa tem peso:
uma noite em seu centro.
O poema é uma coisa
que não tem nada dentro,

a não ser o ressoar
de uma imprecisa voz
que não quer se apagar
— essa voz somos nós."

Não Coisa- Ferreira Gullar

















Miguel Anselmo - Lodi- Itália

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

o que te segura?


















O que te segura?
É o que te prende?
Ou o que te prende?
É o que te segura?

O que te segura?

Zeite ist Kunst !






















"... Aguentou-se à tona até onde lhe foi possível, e agora, perdida a última razão de lutar que lhe restava, deixou-se afundar..."

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos


"Eu queria trazer-te uns versos muito lindos
colhidos no mais íntimo de mim...
Suas palavras
seriam as mais simples do mundo,
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de fechar teus olhos para as ouvir...
Sim! Uma luz que viria de dentro delas,
como essa que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de papel!
Trago-te palavras, apenas... e que estão escritas
do lado de fora do papel... Não sei, eu nunca soube o que dizer-te
e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento
da Poesia...
como
uma pobre lanterna que incendiou!"

Mario Quintana

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"olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas"

Ana Cristina Cesar

O Meu Impossível


Minh’alma ardente é uma fogueira acesa,
É um brasido enorme a crepitar!
Ânsia de procurar sem encontrar
A chama onde queimar uma incerteza!
Tudo é vago e incompleto! E o que mais pesa
É nada ser perfeito.É deslumbrar
A noite tormentosa até cegar,
E tudo ser em vão! Deus, que tristeza!…
Aos meus irmãos na dor já disse tudo
E não me […]


Florbela Espanca

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Tu Queres Sono: Despede-te dos Ruídos


"Ante o que dói e o que dorme apenas pó e reticências."

Sol Sangüineo /Salgado Maranhão


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"Tu queres sono: despe-te dos ruídos, e
dos restos do dia, tira da tua boca
o punhal e o trânsito, sombras de
teus gritos, e roupas, choros, cordas e
também as faces que assomam sobre a
tua sonora forma de dar, e os outros corpos
que se deitam e se pisam, e as moscas
que sobrevoam o cadáver do teu pai, e a dor (não ouças)
que se prepara para carpir tua vigília, e os cantos que
esqueceram teus braços e tantos movimentos
que perdem teus silêncios, o os ventos altos
que não dormem, que te olham da janela
e em tua porta penetram como loucos
pois nada te abandona nem tu ao sono."

Ana Cristina Cesar

Nada basta...



...nada basta.

Nada é de natureza assim tão casta que não macule e perca sua essência ao contato furioso da existência."


Carlos Drumond de Andrade

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

"Ein jeder Engel ist schrecklich"



o anjo que tive abandonou o meu altar

não se guardam anjos na gaiola

eu sabia

acendia-lhe velas de cera de abelha

e oferendava-lhe incenso puro

água consagrada

seda e algodão – mas um anjo não precisa de oferendas

eu sabia

vi-o chorar e desperdiçar as asas

acendi mais velas e queimei mais incenso

disse orações

ele continuou a chorar

o altar está vazio

ele deixou-o e ascendeu

ao seu mínimo

mas livre

céu


Frederico Mira George, "Raiz Pé de Diabo", 2006

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PRIMEIRA ELEGIA

Quem se eu gritasse, entre as legiões de Anjos
me ouviria? E mesmo que um deles me tomasse inesperadamente em seu coração, aniquilar-me-ia sua existência demasiado forte. Pois que é o Belo senão o grau do Terrível que ainda suportamos e que admiramos porque, impassível, desdenha destruir-nos? Todo anjo é terrível.
E eu me contenho, pois, e reprimo o apelo do meu soluço obscuro. Ai, quem nos poderia valer? Nem anjos, nem homens e o intuitivo animal logo adverte que para nós não há amparo neste mundo definido.
Resta-nos, quem sabe,
a árvore de alguma colina, que podemos rever cada dia; resta-nos a rua de ontem e o apego cotidiano de algum hábito que se afeiçoou a nós e permaneceu. E a noite, a noite, quando o vento pleno dos espaços do mundo desgastar-nos a face — a quem se furtaria ela, a desejada, ternamente enganosa, sobressalto para o coração solitário? Será mais leve para os que amam? Ai, apenas ocultam eles, um ao outro, seu destino. Não o sabias? Arroja o vácuo aprisionado em teus braços para os espaços que respiramos — talvez os pássaros sentirão o ar mais dilatado, num vôo mais comovido.

Sim, as primaveras precisam de ti. Muitas estrelas queriam ser percebidas. Do passado profundo afluía uma vaga, ou quando passavas sob uma janemla aberta, uma viola d'amore se abandonava. Tudo isso era missão. Acaso a cumpriste? Não estavas sempre distraído, aà espera, como se tudo anunciasse a amada? (Onde queres abrigá-la, se grandes e estranhos pensamentos vão e vêm dentro de ti e, muitas vezes, se demoram nas noites?) Se a nostalgia vier, porém, canta as amantes; ainda não é bastante imoral sua celebrada ternura. Tu quase as invejas — estas abandonadas que te parecem tão mais ardentes que as apaziguadas. Retoma infinitamente o inesgotável louvor. Lembra-te: o herói permanece, sua queda mesma foi um pretexto para ser — nasciemnto supremo. Mas às amantes, retoma-as a natureza no seio esgotado, como se as forças lhe faltassem para realizar duas vezes a mesma obra. Com que fervor lembraste Gaspara Stampa, cujo exemplo sublime faça enfim pensar uma jovem qualquer, abandonada pelo amante: por que não sou como ela? Frutificarão afinal esses longínquos sofrimentos? Não é tempo daqueles que amam libertar-se do objetivo amado e superá-lo, frementes? Assim a flecha ultrapassa a corda, para ser no vôo mais do que ela mesma. Pois em parte alguma se detém.

Vozes, vozes. Ouve, meu coração, como outrora apenas os santos ouviam, quando o imenso chamado os erguia do chão; eles porém permaneciam ajoelhados, os prodigiosos, e nada percebiam, tão absortos ouviam. Não que possas suportar a voz de Deus, longe disso. Mas ouve essa aragem, a incessante mensagem que gera o silêncio. Ergue-se agora, para que ouças, o rumor dos jovens mortos. Onde quer que fosses, nas igrejas de Roma e Nápoes, não ouvias a voz de seu destino tranquilo? Ou inscrições não se ofereciam, sublimes? A estela funerária em Santa Maria Formosa... O que pede essa voz? a ansiada libertação da aparência de injustiça que as vezes perturba a agilidade pura de suas almas. É estranho, sem dúvida, não habitar mais a terra, abandonar os hábitos apenas aprendidos, às rosas e a outras coisas o sentido do vir-a-ser humano; o que se era, entre mãos trêmulas, medrosas, não mais ser; abandonar até mesmo o próprio nome como se abandona um brinquedo partido. Estranho, não desejar mais nossos desejos. Estranho, ver no espaço tudo o quanto se encandeava, esvoaçar, desligado. E o estar-morto é penoso e quantas tentativas até encontrar em seu seio um vestígio de eternidade. — Os vivos cometem o grande erro de distinguir demasiado bem. Os Anjos (dizem) muitas vezes não sabem se caminham entre vivos ou mortos. Através das duas esferas, todas as idades a corrente eterna arrasta. E a ambas domina com seu rumor.

Os mortos precoces não precisam de nós, eles que se desabituam do terrestre, docemente, como de suave seio maternal. Mas nós, ávidos de grandes mistérios, nós que tantas vezes só através da dor atingimos a feliz transformação, sem eles poderíamos ser? Inutilmente foi que outrora, a primeira música para lamentas Linos, violentou a rigidez da matéria inerte? No espaço que abandonava, jovem, quase deus, pela primeira vez o vácuo estremeceu em vibrações — que hoje nos trazem êxtase, consolo e amparo.


RAINER MARIA RILKE

De Coração




" Seu coração é como um alaúde suspenso, tão logo a gente o toca, ele ressoa"

" Son coeur est un Luth suspendu; sitôt qu' on le touche; il résonnel"


De Béranger